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Ninguém gosta de sofrer. Pessoas que se veem repetidamente em relacionamentos com parceiros emocionalmente indisponíveis não chegam a esse lugar porque gostam de negligência ou porque se sentem atraídas pelo caos. Ainda assim, muitos de nós olham para o próprio histórico amoroso com aquela mesma e terrível sensação de déjà vu.
Depois de certo ponto, fica difícil não internalizar essa repetição como um defeito pessoal. Perguntamo-nos: “Por que eu sempre acabo aqui?” ou “Por que isso continua acontecendo comigo?”. E, muitas vezes, buscamos respostas morais — sobre nosso mau julgamento, baixa autoestima ou bagagens invisíveis. E, para ser justo, essas explicações às vezes contêm um ou outro grão de verdade. Mas, para a grande maioria das pessoas, o principal motor desses padrões repetidos não é a falta de autorrespeito ou de inteligência.
De acordo com pesquisas psicológicas, esses padrões são, muito provavelmente, um subproduto da preferência do seu sistema nervoso por aquilo que ele já conhece. Aqui estão três razões pelas quais isso nos leva a escolher parceiros que não são bons para nós.
1. Padrões de dor familiar versus segurança desconhecida
Uma das verdades mais estranhas, e duradouras, da psicologia é que a familiaridade pode parecer mais segura do que a felicidade. Nesse sentido, quando a dinâmica de um relacionamento se assemelha a algo que já conhecemos, ela é registrada primeiro como território conhecido e só depois como algo desagradável. Por mais contraintuitivo que pareça, pesquisas sobre vínculos traumáticos ajudam a explicar por que isso acontece.
Um estudo de 2022 publicado no Journal of Social and Personal Relationships constatou que até indivíduos que sofrem abuso emocional, psicológico e físico severo frequentemente relatam sentir-se ligados às próprias pessoas que os ferem. Em alguns casos, quando o vínculo traumático é particularmente intenso, as vítimas chegam a permanecer com seus agressores ou a retornar a eles.
Esses tipos de vínculo se formam quando o sofrimento e o alívio vêm da mesma fonte. Por isso, o sistema nervoso aprende a associar proximidade à mesma pessoa que associa à instabilidade. O cérebro recebe tantos sinais mistos sobre o que é amor e o que é instabilidade que, como resultado, começa a confundir uma coisa com a outra.
Quando esse modelo é internalizado, relacionamentos que não correspondem a esse esquema confuso podem parecer estranhamente sem graça. Na pior das hipóteses, podem até parecer inseguros. A calma pode ser interpretada como tédio, e a segurança pode ser confundida com falta de química.
Assim, a dor familiar supera a segurança desconhecida. O fato de machucar empalidece diante do fato de parecer conhecido. E o desconhecido, independentemente de ser objetivamente mais saudável, pode gerar ansiedade simplesmente por não ser familiar.
2. Padrões de condicionamento
Em uma revisão de 2025 publicada na Clinical Neuropsychiatry, o psicólogo Stephen Porges reuniu anos de pesquisa em sua renomada Teoria Polivagal. Nessa teoria, ele propõe que o sistema nervoso autônomo está constantemente escaneando o ambiente em busca de sinais de segurança e perigo, muitas vezes muito abaixo do nosso nível de consciência.
Ele observa, porém, que nossos sistemas nervosos não respondem apenas ao que é objetivamente seguro. Eles também levam em conta aquilo que historicamente contribuiu para nossa sobrevivência. Isso significa que, se a toxicidade relacional já esteve associada a afeto ou alívio (mesmo que de forma desigual), o sistema nervoso ainda pode aprender a associar esses padrões ao apego.
Em outras palavras, o corpo se acostuma a certos ritmos relacionais. Por exemplo, pode estar habituado a um ex que mantinha seu sistema nervoso em constante estado de alerta, seguido por momentos de alívio quando voltava a se aproximar.
Se esse relacionamento durou tempo suficiente, seu corpo pode ter aprendido a agrupar sentimentos de antecipação, alívio e apego. Nesse sentido, o relacionamento não parecia “vivo” porque era saudável, mas porque ativava continuamente, e depois acalmava temporariamente, sua resposta ao estresse. Dado o quanto você pode se condicionar a essa dinâmica de gato e rato, pode acabar buscando-a novamente, sob a crença de que isso é normal.
No entanto, esse condicionamento não desaparece simplesmente no dia em que você reconhece intelectualmente que não é normal. É possível saber que alguém não é bom para você e, ainda assim, sentir-se atraído por essa pessoa. Isso acontece porque o sistema nervoso é moldado pela repetição; raramente ele é convencido pela lógica.
Quando você entra em um relacionamento que não tem esses gatilhos familiares, seu sistema nervoso pode não registrá-lo como seguro de imediato. Estabelecer-se com alguém emocionalmente estável, disponível e previsível pode ser desconcertante justamente por ser algo totalmente novo.
3. Padrões de previsibilidade emocional
Os seres humanos são organismos que fazem previsões. Biológica e evolutivamente, estamos programados para tentar antecipar o que vem a seguir, especialmente em relacionamentos íntimos. De acordo com uma revisão de 2024 publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry, a imprevisibilidade na infância desempenha um grande papel na formação da regulação do estresse, das expectativas emocionais e dos comportamentos relacionais na vida adulta.
De forma mais marcante, grande parte da literatura citada nessa revisão aponta que a própria imprevisibilidade, e não apenas a adversidade, é suficiente para sensibilizar o sistema nervoso. Se você recebeu respostas emocionais inconsistentes de seus cuidadores primários quando era criança, seu cérebro precisou se adaptar tornando-se hipervigilante.
O cérebro então passa a compensar a imprevisibilidade com monitoramento constante, antecipação e preparação; ele permanece em alerta permanente para qualquer sinal de mudança no clima emocional. Se isso se torna a norma durante os anos formativos, quando o cérebro é mais maleável, viver em um estado contínuo de vigilância pode se tornar o seu padrão.
Por causa disso, você pode, de forma inconsciente, gravitar em direção a relacionamentos que recriam esse mesmo cenário emocional na vida adulta. Novamente, não porque seja prazeroso, mas porque o caos segue um padrão para o qual seu corpo acredita estar mais preparado. Pode soar estranho, mas até a instabilidade pode começar a parecer previsível quando se convive com ela por tempo suficiente.
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas sabotam relacionamentos estáveis ou se sentem inquietas neles. A previsibilidade sem volatilidade pode ser desorientadora se o seu sistema nervoso foi moldado em um ambiente imprevisível. A estabilidade emocional não forneceria os sinais familiares que seu sistema aprendeu a rastrear. E, sem esses sinais, o relacionamento pode parecer errado quando, na verdade, ele é apenas diferente.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.




