
Cristiane Amorim, destaque como Carmem na novela Êta Mundo Melhor!, exalta a oportunidade de realizar mais um trabalho na televisão sem a necessidade de esconder seu sotaque. Nascida em Amargosa, interior da Bahia, a atriz, de 53 anos de idade, iniciou a carreira ao ingressar na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1992.Vivendo no Rio de Janeiro desde 2004 — depois de realizar 18 peças teatrais na Bahia — Cristiane conta que percebeu o preconceito com seu sotaque para oportunidades no meio artístico. A atriz conta que se manteve resistente aos pedidos para “neutralizar” sua maneira de falar.”Vi colegas se adaptando e neutralizando o sotaque para abrir frente de trabalho, mas eu preferi batalhar pelo meu sotaque. Há preconceito com os sotaques do Nordeste, é xenofobia. O Brasil é um país tão miscigenado e tão plural… Escutei comentários como: ‘Se você continuar com o sotaque nordestino, você só vai fazer papel de empregada doméstica”, relata.Cristiane Amorim interpreta Carmem, uma falsa vidente cigana em ‘Êta Mundo Melhor!’TV GloboCom papéis em novelas como Cordel Encantado, Joia Rara e Amor Perfeito, Cristiane afirma que a estabilidade profissional ainda é um sonho a realizar. “Quero ser mais conhecida, chegar a outro patamar, sem tantos altos e baixos. Não quero ficar ‘disponível para o mercado’ — maneira que a gente usa para não falar ‘desempregada’, afirma a atriz, avaliando que o mercado de trabalho: “O famoso tem mais espaço que o talentoso. Muitas vezes, a pessoa não tem formação, nem talento, mas tem portas escancaradas. Enquanto isso, artistas talentosos ficam sem oportunidades no audiovisual”. Quem: Como surgiu a oportunidade de atuar em Êta Mundo Melhor? O que podemos esperar da Carmem?Cristiane Amorim: Foi um convite da diretora artística, Amora Mautner, com quem trabalhei nas novelas Joia Rara e Cordel Encantado. Carmem se apresentou como uma falsa vidente no início da novela. Com o passar do tempo, pudemos perceber que ela tem certa mediunidade e acessa outras dimensões. Ela tem visões e acerta em previsões. Vamos ver se ela vai revelar o passado de alguns personagens.Cristiane AmorimEdu RodriguesVocê nasceu na Bahia e se mudou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades profissionais. Chegou a enfrentar algum tipo de preconceito?Eu me mudei para o Rio de Janeiro em 2004. Já completei 21 anos na cidade. Fui muito acolhida pelos cariocas. O preconceito com o meu sotaque no âmbito profissional. Ouvi: “Você vai ter que neutralizar o sotaque” ou “Você vai ter que diminuir o sotaque porque ele é carregado”… Resisti a isso. Vi colegas se adaptando e neutralizando o sotaque para abrir frente de trabalho, mas eu preferi batalhar pelo meu sotaque. Há preconceito com os sotaques do Nordeste, é xenofobia. O Brasil é um país tão miscigenado e tão plural… Por que há preconceito com sotaque do Nordeste? Percebi que essa colocação de “neutralizar o sotaque” não era feita para profissionais que vinham de São Paulo, Minas, Paraná… Escutei comentários como: “Se você continuar com o sotaque nordestino, você só vai fazer papel de empregada doméstica”. Isso é de um preconceito absurdo, é xenofobia. Hoje em dia, não escuto mais isso. Há mais consciência. Batalhei e continuo batalhando pelo meu sotaque e estou aberta a estudos, como foi o caso da novela Amor Perfeito em que fiz uma personagem mineira e fiz o sotaque mineiro.Sua primeira novela foi Cordel Encantado. Desde então, sua veia cômica é explorada em trabalhos na TV. Gosta do gênero? Tem vontade de transitar?Gosto muito do gênero. Fazer rir é um privilégio. O riso cura, o riso salva. E também é possível abordar assuntos sérios com leveza, com humor. Tenho vontade de transitar por outras searas. Estou aberta aos desafios. Quero experimentar outras possibilidades de interpretação no audiovisual, seja drama, seja vilania.Cristiane AmorimEdu RodriguesNo início de Êta Mundo Melhor!, sua personagem era uma falsa vidente. Você já passou por alguma experiência com golpistas?Nunca passei por uma ação golpista. Porém, uma vez, fui abordada na rua e percebi que a intenção da pessoa não era do bem. Percebi que ela estava se aproveitando da minha curiosidade. Ela tinha a intenção de aplicar um golpe, mas não caí.O meio artístico é marcado por instabilidade. Em algum momento da carreira cogitou desistir da profissão?Muitas vezes. E já vi isso acontecer com colegas consagrados, gente com anos e anos de carerira. É muito difícil fazer arte no Brasil. No início da carreira, eu não tive essa sensação, apesar das dificuldades e perrengues. Quando você é jovem, você tem ousadia, ação e vitalidade. Hoje, com 33 anos de carreira, me questiono. Afinal, é uma carreira difícil, com muitos recomeços. Nossos trabalhos são periódicos. Fazer teatro no Brasil tem ficado muito difícil. Há peças que ficam em cartaz apenas em um dia da semana. Antes, eram de quinta a domingo. O questionamento da escolha da profissão, vira e mexe, vem. Mas tenho a resposta: ser artista, não é uma escolha, é uma vocação. A gente vai vivendo e sobrevivendo.Cristiane AmorimEdu RodriguesCom mais de 30 anos de profissão, você ainda tem muitos sonhos a realizar?Sim, muitos. Quem não sonha, não vive. Um sonho pessoal é ter a minha casa própria. Tenho 33 anos de carreira e nunca consegui comprar minha casa. Meu sonho profissional é o da estabilidade. Quero ser mais conhecida, chegar a outro patamar, sem tantos altos e baixos. Não quero ficar “disponível para o mercado” — maneira que a gente usa para não falar “desempregada”. Os valores atualmente andam trocados. O famoso tem mais espaço que o talentoso, me entende?No sentido de que não é necessário ter talento para conquistar a fama?Para ser famoso, hoje em dia, você não precisa ser artista. Você pode entrar em um reality show e ficar famoso. Dependendo do conteúdo que você cria para a rede social, você fica famosa. Assim, o famoso tem mais oportunidades que o talentoso. Muitas vezes, a pessoa não tem formação, nem talento, mas tem portas escancaradas. Enquanto isso, muitos artistas talentosos ficam sem oportunidades no audiovisual. Cristiane AmorimEdu Rodrigues




