O Que Vai Mover o Agro até a Virada para 2027, Segundo Marcos Fava Neves

0
3


Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

O agronegócio brasileiro entra em 2026 e segue até a virada para 2027 num ambiente menos permissivo, no qual o crescimento deixa de ser consequência automática da escala e passa a depender, cada vez mais, de estratégia, gestão e eficiência. Após um ciclo marcado por expansão acelerada, o setor começa o ano sob a lógica dos ajustes finos, pressionado por juros elevados, maior seletividade do crédito e margens mais estreitas.

Essa leitura é do engenheiro agrônomo e pós-graduado em estratégias empresariais Marcos Fava Neves, sócio-fundador da Harven Agribusiness School, que acompanha de perto o comportamento econômico e tecnológico do setor.

Para ele, o momento exige menos improviso e mais método. “Depois de um período de forte crescimento, o agro passa a conviver com um cenário de maior pressão sobre custos, necessidade de controle e decisões mais racionais”, afirma.

A tecnologia entra de vez no cotidiano do campo

tecnologia agricola
Thomas Barwick/Getty ImagesMapa de produtividade na hora da colheita

Se há um ponto de consenso para 2026, ele passa pela tecnologia. A inteligência artificial deixa de ser discurso futurista e se consolida como ferramenta operacional dentro das fazendas.

“A IA já está mudando praticamente todos os setores, e na agricultura isso acontece dentro da porteira”, diz Neves.

Os ganhos mais imediatos aparecem na eficiência operacional. Algoritmos passam a orientar a aplicação localizada de insumos, o monitoramento da lavoura e o planejamento das operações.

“Vamos ter uma agricultura cada vez mais cirúrgica, com menos desperdício, menos erro e mais precisão”, resume. O efeito se estende à gestão, à capacitação de equipes e à redução da dependência de mão de obra em determinadas etapas do processo produtivo.

Bioinsumos deixam de ser tendência e viram regra

Nesse mesmo movimento de busca por eficiência, os bioinsumos se consolidam como parte estrutural dos sistemas produtivos. A adoção crescente reflete tanto a pressão por práticas sustentáveis quanto a necessidade de reduzir custos e aumentar a previsibilidade agronômica.

“O produtor não está olhando apenas para o discurso ambiental, mas para o resultado econômico no campo”, observa Neves.

Solos mais equilibrados, menor dependência de insumos químicos e maior estabilidade produtiva passam a ser diferenciais relevantes em um ambiente de margens comprimidas.

Biocombustíveis ganham dimensão estratégica

Cana-de-açúcar
Studio CJ/Getty ImagesColheita de cana-de-açúcar

A bioenergia é outro eixo que começa a ganhar densidade em 2026. Embora o uso obrigatório do combustível sustentável de aviação esteja previsto apenas para 2027, os investimentos já estão em andamento.

“O SAF começa a rodar no Brasil a partir de 2027, mas os contratos e as plantas industriais estão sendo estruturados agora”, explica Neves.

O impacto, porém, vai além da aviação. Testes com etanol, biogás e biometano em tratores, colheitadeiras e motores de grande porte indicam uma mudança estrutural no custo energético do agro. 

“Isso muda a história da agricultura. Muitos grupos vão produzir o próprio combustível, substituindo o diesel, com benefício ambiental e econômico”, afirma.

Custos, juros e disciplina financeira no centro da agenda

Se a tecnologia aponta caminhos, o ambiente financeiro impõe limites. Para 2026, o controle de custos e a redução do endividamento tornam-se prioridades absolutas. “A eficiência passa a ser palavra-chave”, diz Neves. Segundo ele, o peso dos juros elevados se transformou no principal fator de pressão sobre as margens.

“A grande doença hoje da agricultura é a taxa de juros”, afirma. O encarecimento do crédito, somado ao aumento das recuperações judiciais no setor, reduz a confiança e torna o capital mais caro. O resultado é um cenário de expansão mais cautelosa e seletiva.

Reforma tributária pede atenção, não alarde

No campo institucional, a Reforma Tributária aparece como variável estratégica, mas sem efeitos imediatos. “Ela traz simplificação e uma fiscalização muito mais moderna, digital”, avalia Neves.

As mudanças em tarifas e carga tributária tendem a ocorrer de forma gradual, exigindo acompanhamento próximo por parte das empresas.

O alerta maior recai sobre segmentos específicos da cadeia, sobretudo os serviços ligados ao agro. “Alguns setores sentirão mais, outros menos. É preciso esperar para entender o impacto real em cada atividade”, pondera.

Câmbio e o risco de compressão de margens

colheita de grãos
Drs Producoes/Getty ImagesAcompanhamento de uma colheita de trigo no Rio Grande do Sul

No cenário macroeconômico, o câmbio volta ao centro das decisões. Após anos em que o dólar elevado favoreceu a competitividade das exportações, existe a possibilidade de valorização do real ao longo de 2026, especialmente no segundo semestre, influenciada pelo ambiente político e pelas expectativas fiscais.

“Não é uma projeção fechada, mas um dos cenários possíveis”, explica Neves.

O risco está no descompasso entre custos e receitas. “Os insumos demoram para cair de preço, porque foram importados com dólar mais alto, enquanto os preços das commodities caem em reais”, diz. Para produtores que não se protegeram, o efeito pode ser um esmagamento de margens no momento da colheita.

Clima, sanidade e política seguem no radar

As variáveis estruturais continuam determinantes. Condições climáticas, produção agrícola e comportamento dos preços das principais commodities seguem definindo o desempenho do setor. Questões sanitárias também permanecem no radar, em um ambiente global mais atento a riscos sistêmicos.

O calendário político tende a influenciar o ritmo do ano. “Anos eleitorais costumam ter um segundo semestre mais lento, especialmente para investimentos e decisões regulatórias”, observa Neves.

Ajustes no curto prazo, fundamentos preservados

Apesar de um ambiente mais exigente, o especialista vê um setor resiliente. “O agro brasileiro entra em um momento de ajustes, mas segue com fundamentos sólidos, capacidade de inovação e grande potencial de crescimento no médio e longo prazo”, afirma.

Para 2026 e a virada para 2027, a mensagem deve menos euforia e mais estratégia. Em um cenário de margens apertadas, quem conseguir combinar tecnologia, gestão e disciplina financeira tende a atravessar o ciclo com mais consistência.





Fonte: TV Alagoas

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here