Brasileiro conta experiência como soldado solitário nas FDI

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Centenas de brasileiros serviram nas Forças de Defesa de Israel (FDI) durante a guerra contra o grupo terrorista Hamas, conflito atualmente em um cessar-fogo cuja segunda fase depende do Conselho da Paz proposto pelo presidente americano, Donald Trump, sair do papel.

De acordo com o site britânico Declassified UK, que obteve os dados mediante um pedido de acesso à informação enviado às FDI, no ano passado havia 596 brasileiros nas forças armadas de Israel.

Muitos desses servem como soldados solitários, como são chamados os militares das FDI que não têm apoio familiar presencial no país. Uma reportagem do jornal The Times of Israel mostrou que a corporação tinha no ano passado cerca de 7 mil soldados solitários.

Cerca de metade deles eram israelenses natos, que não tinham apoio familiar devido a situações pessoais, como serem oriundos de lares desfeitos ou ultraortodoxos, que são contra o serviço militar, o que gera rompimentos familiares. A outra metade era composta de imigrantes, que foram para Israel sozinhos para servir nas FDI.

O brasileiro S. (por questões de protocolo das FDI, o nome completo não foi informado) está nas forças armadas de Israel há dois anos e quatro meses e está a quatro meses de completar o serviço militar obrigatório.

Em entrevista à Gazeta do Povo por telefone, o sargento contou que serve na Brigada Givati, que tem o apelido de “raposas do deserto” devido ao seu local de treinamento.

S. vai completar sete anos de residência em Israel em setembro. “Quando eu tinha 16 anos, meus pais voltaram de uma viagem a Israel e me perguntaram se eu queria ir para o país estudar, fazer o ensino médio. Fiquei pensando e decidi ir. Pensei: ‘Não tenho nada a perder, no máximo, volto para casa’”, relatou.

S. estudou numa escola onde a maioria dos estudantes era estrangeira. Depois de concluir os três anos de ensino médio, se deparou com as opções de permanecer em Israel, entrando para as FDI, ou voltar para o Brasil.

“Eu gostei muito daqui, é um país muito bom para morar. No fim das contas, é muito seguro, a qualidade de vida é muito boa. Então, decidi ficar. Mas, antes de entrar para o exército, eu fiz um voluntariado com crianças numa escola durante um ano”, disse S. Ao final desse período, aconteceram os atentados do Hamas, em 7 de outubro de 2023.

“Eu fiquei pensando muito comigo, se eu voltava para o Brasil ou não voltava, o que ia dar, porque foi bem difícil. Mas alguma coisa falou para mim que eu tinha que virar combatente. Tinha que ir para a linha de frente para devolver o que Israel já me deu”, disse S.

O sargento brasileiro S., da Brigada Givati das FDI (Foto: Divulgação/FDI)

Nas FDI, o brasileiro, que já era atraído por tecnologia, se interessou por drones e fez vários cursos na área. Na guerra na Faixa de Gaza, S. esteve em praticamente “todo” o enclave, na linha de frente, mas atuando de forma “especializada em drones”.

“É uma experiência que eu nunca vou me arrepender de ter passado, isso eu tenho certeza. Porque você vive coisas que você não imaginaria. Mas eu acho que o mais importante disso são as amizades que você cria, porque no fim das contas está todo mundo ali junto, todo mundo está sofrendo do mesmo jeito, mas também se motivando, se ajudando”, disse o sargento, que tem pessoas de vários países como colegas nas FDI.

“Você acaba conhecendo gente do mundo inteiro que decidiu vir fazer isso, decidiu servir no exército por uma causa maior. Cada um tem seu motivo, é realmente pessoal, mas no fim todo mundo veio para poder proteger Israel”, disse S.

Para o sargento, o status de soldado solitário proporciona um olhar especial por parte dos militares e da população israelenses.

“Eles te dão mais oportunidades, te dão muito mais ajuda no exército. Porque sabem que não é fácil morar sozinho, sabem que, no fim das contas, você tem que voltar para casa depois de ter se fechado 20, 30 dias na base, e tem que fazer tudo: você tem que cozinhar, você tem que lavar, você mora sozinho. Você não tem os pais [ao seu lado], como todo mundo aqui no exército”, explicou.

“É difícil ver o seu país se voltando contra Israel”, diz brasileiro

No caso dos soldados solitários brasileiros, há a situação específica de que Brasil e Israel vivem um momento de tensão diplomática.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi declarado persona non grata pelo governo do premiê Benjamin Netanyahu após ter comparado a ofensiva em Gaza ao Holocausto. Além disso, o governo petista retirou o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) e aderiu à ação da África do Sul na Corte Internacional de Justiça (CIJ) contra Israel.

Em resposta, o governo Netanyahu acusou Lula de antissemitismo e colocou as relações entre os dois países em “nível diplomático inferior”.

“Acho que a única coisa que tenho para falar sobre isso é que me dói muito. Saber que Israel já ajudou o Brasil em várias crises que aconteceram, se voluntariando… E de repente você vê o seu país ficando contra [Israel], é realmente uma questão que é bem difícil de ver. Eu nunca consegui escolher um lado, porque não tem como. Um é o lugar onde eu cresci, onde eu nasci, e o outro é o lugar que me acolheu”, disse S.

“Os israelenses gostam muito do Brasil. Gostam muito de brasileiros, eles veem um brasileiro e já ficam 100% animados. E quando veem um brasileiro no exército e sabem que ele é soldado solitário, sem os pais, para eles é uma loucura que eu esteja fazendo isso, ter saído de casa pra servir outro país que não é o meu país natal”, disse o sargento.

S. afirmou que, após completar o período de dois anos e oito meses, pretende ficar mais alguns anos nas FDI.

“Nesse batalhão, nessa equipe, eu virei sargento, sargento dos drones. Então, toda a minha parte é especializada em arrumar drones, ensinar as pessoas a voar, como funciona o drone e tudo. E acabou que eu gostei muito disso. Então, recebi [convites de] alguns lugares que querem que eu fique mais tempo, para poder ensinar às pessoas que estão entrando no exército a começar com isso”, explicou.



Fonte: Gazeta do Povo.

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