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A Ra?zen, joint venture entre a Shell e o grupo Cosan, protocolou um pedido de recupera??o extrajudicial no Tribunal de Justi?a de S?o Paulo arrolando R$ 65 bilh?es em d?vidas concursais. O montante ? o maior j? inclu?do em um processo desse tipo no Brasil e coloca a companhia no centro de uma das crises corporativas mais profundas do agroneg?cio brasileiro nas ?ltimas d?cadas. H? menos de cinco anos, a empresa protagonizou um dos maiores IPOs da hist?ria da B3 com valor de mercado de cerca de R$ 74 bilh?es e agora negocia com credores a sobreviv?ncia de sua estrutura financeira.
A origem da empresa remonta ? estrat?gia de expans?o do grupo Cosan no setor de energia. Em dezembro de 2008, a Cosan adquiriu da ExxonMobil os ativos da varejista e distribuidora de combust?veis Esso pelo valor total de US$ 826 milh?es, incorporando uma ampla rede de postos e infraestrutura de distribui??o.
Em 1º de junho de 2011, a Cosan e a Shell formalizaram a joint venture que daria origem ? Ra?zen, combinando a produ??o de a??car e etanol da companhia brasileira com a marca global, o capital e a tecnologia da petroleira. Cosan e Shell det?m, cada uma, 44% do capital da empresa, com os 12% restantes distribu?dos entre outros acionistas.
O nome escolhido para a joint venture n?o foi aleat?rio: faz refer?ncia ? raiz da cana-de-a??car, mat?ria-prima central do neg?cio, enquanto o roxo do logotipo representa a colora??o da planta no momento em que est? pronta para a colheita.
Nos anos seguintes, a Ra?zen consolidou sua posi??o como a maior processadora de cana e a maior produtora mundial de etanol de cana-de-a??car. Na safra 2024/25, a companhia processou cerca de 77,5 milh?es de toneladas de cana-de-a??car, mantendo-se entre as maiores opera??es sucroenerg?ticas do planeta. A empresa tamb?m expandiu para a Argentina, onde se tornou a segunda maior distribuidora de combust?veis do pa?s, operando sob licen?a da marca Shell.
O IPO e a aposta renov?vel
Em agosto de 2021, a Ra?zen abriu seu capital na B3 com valor de mercado de cerca de R$ 74 bilh?es, captando R$ 6,9 bilh?es no maior IPO do ano na bolsa brasileira. A demanda pelos pap?is chegou a R$ 30 bilh?es, com R$ 14 bilh?es provenientes de investidores pessoa f?sica.
O argumento central para os investidores era o crescimento em energia renov?vel, especialmente no etanol de segunda gera??o (E2G), produzido a partir da palha e do baga?o da cana e capaz de aumentar a produ??o em 50% sem expandir a ?rea de plantio.
A empresa comprometeu 80% dos recursos captados no IPO para construir, nos dez anos seguintes, 20 plantas de E2G. A Ra?zen era, naquele momento, a ?nica produtora do mundo de E2G em escala industrial, com contratos de comercializa??o de 4,3 bilh?es de litros j? firmados com a Shell. A aposta, por?m, trouxe d?vida junto com ambi??o. Desde 2016, a companhia financiava projetos de longo prazo com endividamento crescente.
O E2G demandava capital intensivo, com cada nova planta exigindo investimento aproximado de R$ 1,2 bilh?o em CAPEX. Ao mesmo tempo, a empresa passou a atuar em ?reas distantes do seu neg?cio central. O resultado foi uma alavancagem que se tornou insustent?vel quando o ciclo de juros virou.
Rubens Ometto: a ?locomotiva? do etanol” e a Shell
Por tr?s da Cosan, e portanto da metade brasileira da Ra?zen, est? Rubens Ometto Silveira Mello, nascido em Piracicaba (SP) em 24 de fevereiro de 1950. Formado em Engenharia de Produ??o Mec?nica pela Escola Polit?cnica da USP, Ometto passou pelo Unibanco entre 1971 e 1973 e pela diretoria financeira do Grupo Votorantim antes de ingressar nos neg?cios da fam?lia na d?cada de 1980.
Sob seu comando, a Cosan se transformou de usina regional na maior produtora de a??car e etanol do Brasil e uma das maiores do mundo. Ometto foi o primeiro usineiro a abrir capital na Bovespa, em 2005, e estreou na Bolsa de Nova York em 2007. Naquele mesmo ano, a Forbes o identificou como o primeiro bilion?rio do mundo oriundo do setor de etanol.
O estilo combativo nas disputas pelo controle da Cosan lhe rendeu o apelido de ?o trator? entre os usineiros do interior paulista. Em 2021, Ometto figurava entre os dez maiores bilion?rios brasileiros, segundo a Forbes, com patrim?nio estimado em R$ 46 bilh?es. Na atual lista global dos bilion?rios, publicada nesta ter?a-feira (10), sua posi??o caiu para a 50ª coloca??o no ranking de pessoas mais ricas do Brasil, com fortuna avaliada em US$ 1,5 bilh?o. O executivo foi capa de edi??o da Revista Forbes, em sua edi??o anual de Agro.
A trajet?ria do patrim?nio acompanha a deteriora??o do valor de mercado da Ra?zen e da Cosan ao longo do per?odo de crise. Como parte do plano de reestrutura??o da Ra?zen, Ometto comprometeu aporte pessoal de R$ 500 milh?es por meio de sua holding Aguassanta Investimentos.
A Shell chegou ao Brasil em 1913 e mant?m opera??es cont?nuas no pa?s h? mais de um s?culo. A companhia atua em 70 pa?ses com mais de 90.000 funcion?rios e, no Brasil, concentra aten??o no setor de energia, com ?nfase em tecnologia e inova??o. Ao longo das d?cadas, ampliou progressivamente sua presen?a na Am?rica Latina.

Na Argentina, a Ra?zen adquiriu ativos da pr?pria Shell, incluindo uma refinaria em Buenos Aires e cerca de 600 postos de combust?vel, consolidando a segunda posi??o no mercado local de distribui??o. No contexto do pedido de recupera??o extrajudicial, a petroleira confirmou aporte de R$ 3,5 bilh?es como parte do plano de capitaliza??o da joint venture, assumindo o papel de principal financiador da reestrutura??o ap?s a Cosan sair das negocia??es sobre uma capitaliza??o conjunta.
A compara??o com outros processos recentes dimensiona a escala do caso. Lavoro e Belagr?cola, dois dos processos de recupera??o extrajudicial mais recentes e de grande porte no agroneg?cio, envolveram R$ 2,5 bilh?es e R$ 2,2 bilh?es, respectivamente. O pedido da Ra?zen, com R$ 65 bilh?es, ? cerca de 26 vezes maior que o maior desses dois casos. A s?rie hist?rica monitorada pelo Observat?rio Brasileiro de Recupera??o Extrajudicial (Obre) contabiliza 283 casos desde 2005, com volume total que ultrapassa R$ 145,3 bilh?es em d?vidas renegociadas por meio desse instrumento no Brasil.
A Ra?zen, sozinha, responderia por mais de 44% de todo esse montante acumulado em duas d?cadas.O peso setorial do processo vai al?m dos n?meros financeiros. A companhia ? respons?vel pelo processamento de cerca de 12% de toda a cana produzida no Brasil, com moagem superior a 80 milh?es de toneladas por safra. Metade do volume processado prov?m de canaviais pr?prios ou arrendados; a outra metade ? comprada de um contingente estimado em mais de 2.000 produtores fornecedores, em um dos maiores movimentos de economia circular do pa?s.

A cadeia envolvida inclui ainda fornecedores de insumos, prestadores de servi?os e trabalhadores rurais que gravitam em torno das opera??es da empresa, sobretudo no interior de S?o Paulo. A crise da Ra?zen n?o surgiu num v?cuo, mas chega ao mercado num momento em que o setor como um todo enfrenta press?o de cr?dito, margens apertadas e custo financeiro elevado.
Vale registrar que as recupera??es extrajudiciais s?o mecanismos mais simples que as judiciais, previstas em lei e onde ocorrem negocia??es diretas entre empresas e credores. Do lado das recupera??es judiciais (n?o extrajudiciais) o agroneg?cio brasileiro registrou 1.990 pedidos em 2025, o maior volume desde o in?cio da s?rie hist?rica da Serasa Experian, com alta de 56,4% em rela??o a 2024, quando foram contabilizadas 1.272 solicita??es. A escalada ? cont?nua: em 2021, primeiro ano monitorado pela datatech, os pedidos somaram 193; em 2022, chegaram a 232; em 2023, a 534. Os tr?s segmentos da cadeia produtiva registraram aumento. Produtores rurais pessoa jur?dica apresentaram o crescimento mais expressivo, de 84,1%, com 753 solicita??es.
Produtores pessoa f?sica totalizaram 853 pedidos, alta de 50,7%. Empresas ligadas ao agroneg?cio, como fornecedoras de insumos e log?stica, contabilizaram 384 requerimentos, crescimento de 29,3%. Mato Grosso liderou o ranking por estado, com 332 pedidos, seguido por Goi?s (296), Paran? (248), Mato Grosso do Sul (216) e Minas Gerais (196). ?O ambiente de cr?dito mais restritivo, combinado ? manuten??o de custos elevados de produ??o e a uma alavancagem elevada, continuou impactando o fluxo de caixa das opera??es rurais?, afirmou Marcelo Pimenta, head de agroneg?cio da Serasa Experian, em nota, nesta segunda.




