Do Amazonas Ao Mundo: Como o Cacau Conquistou a Humanidade Ao Longo de Cinco Milênios

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O cacaueiro que originou o chocolate consumido hoje em mais de 100 países nasceu nas cabeceiras da Bacia Amazônica. A história que conecta essa árvore da floresta tropical às prateleiras das confeitarias europeias atravessa cinco mil anos de cultivo, comércio, rituais religiosos e descobertas científicas sobre a química do prazer. Em tempos de Páscoa, época na qual o chocolate é um símbolo de fraternidade e comunhão, saber a origem do fruto que originou o doce é uma forma de se ligar à terra e às suas potencialidades.

O Theobroma cacao, nome científico atribuído pelo naturalista sueco Carl Lineu em 1753, pertence à família Malvaceae e é nativo das florestas úmidas sul-americanas. O gênero Theobroma vem do grego e significa “alimento divino”, uma denominação que não estava longe do que povos de diferentes civilizações pensavam sobre o fruto, como a história mostraria. Em condições naturais, o cacaueiro atinge até 20 metros de altura.

Em cultivo, mantém-se entre 3 e 5 metros. Uma de suas características botânicas mais incomuns é a caulifloria: flores e frutos brotam diretamente do tronco principal ou dos galhos mais próximos a ele, e não nos ramos extremos da copa, como ocorre na maioria das espécies frutíferas.

Os frutos são bagas angulosas de até 25 centímetros de comprimento, de coloração amarela ou vinácea, com 20 a 40 sementes ovoides envoltas por uma polpa adocicada. Dessa polpa, e não dos grãos, partiu o primeiro contato sensorial da humanidade com o cacau.

O cacaueiro expandiu-se originando grupos distintos a partir da Amazônia. O Criollo migrou em direção ao norte, alcançando o rio Orinoco, a América Central e o sul do México. Produz frutos grandes, de superfície enrugada, com sementes de interior branco ou violeta pálido e aroma intenso, mas apresenta sensibilidade a mudanças climáticas e pragas.

O Forastero seguiu outro trajeto e hoje responde por 95% da produção mundial, graças à alta produtividade e resistência. O Trinitario é um híbrido entre as duas variedades e reúne características de ambas.

Essa diversidade genética, registrada nas cerâmicas das 19 culturas pré-colombianas da Amazônia, mostra que o intercâmbio entre variedades de cacau não é uma invenção da agricultura moderna. As redes de troca que conectavam o Alto Amazonas à América Central há mais de cinco mil anos já movimentavam sementes e saberes sobre o fruto que, séculos depois, o mundo passaria a chamar de alimento dos deuses.

Cinco mil anos de cultivo documentado

As evidências mais antigas do uso do cacau pela humanidade estão na própria Amazônia. Análises de DNA em mais de 350 peças arqueológicas do Alto Amazonas identificaram partículas do fruto em cerca de 30% delas, comprovando o cultivo há mais de cinco mil anos, nas redes de troca antigas conectando a Amazônia à América Central.

Os usos registrados nesses sítios arqueológicos incluíam o consumo da polpa in natura, a preparação de bebidas e receitas elaboradas com o pó da semente torrada, além de aplicações medicinais, inclusive como antisséptico. O cacau apareceu em vasos funerários e também em escavações domésticas, mostrando que permeava diferentes esferas da vida cotidiana e ritual.

A documentação do fruto na Mesoamérica é mais recente, mas igualmente sólida. Recipientes de cerâmica com resíduos de cacau foram encontrados em sítios arqueológicos do Período Formativo, datados entre 1900 e 900 a.C. Um achado específico, localizado num sítio olmeca na costa de Veracruz, no México, indica preparações do fruto em torno de 1750 a.C.

Os olmecas, ativos entre 1200 e 400 a.C., são considerados os primeiros mesoamericanos a usar o cacau de forma documentada, embora os pesquisadores ainda discutam se chegaram a domesticar a planta ou se limitavam ao consumo da polpa fermentada para produzir bebidas alcoólicas, como faziam as populações amazônicas.

O cacau sagrado dos maias e a moeda dos astecas

Para os maias, o cacau transcendia a alimentação. A bebida preparada com grãos torrados e moídos, misturados com água, pimenta e outros ingredientes, recebia o nome de chocolhaa e era amarga, espumosa e altamente reverenciada. No período clássico maia, entre 150 e 900 d.C., o cacau aparece representado em recipientes, relevos e códices, sempre associado a personagens de estatuto elevado durante cerimônias importantes.

O Império Asteca deu ao cacau uma função econômica direta: as sementes circulavam como moeda e como forma de pagamento de tributos. Um dos objetivos da expansão imperial asteca rumo ao sudeste, no século XV, era justamente o controle das regiões produtoras no Istmo de Tehuantepec e no litoral sul da Guatemala. Maias e astecas trituravam os grãos com milho e pimenta, aromatizavam o preparo com baunilha e canela, e chamavam a bebida resultante de xocatl.

Cristóvão Colombo apresentou o cacau à Europa em sua quarta viagem ao Novo Mundo, por volta de 1502, levando sementes ao rei Fernando II. O produto passou quase despercebido entre as outras riquezas trazidas da América. O primeiro carregamento comercial saiu de Veracruz com destino a Sevilha em 1585. Por quase cem anos, o preparo da bebida permaneceu como um segredo espanhol, acessível apenas à aristocracia local, até chegar à Itália em 1606.

GettyimagesFruto era sagrado para muitas populações das Américas

A química que explica o apelo irresistível

A trajetória do cacau da floresta amazônica às cortes europeias não se explica apenas por rotas comerciais. A atração que o fruto exerceu sobre civilizações tão distintas tem fundamento químico, e a ciência moderna passou a decifrar esses mecanismos com precisão.

O perfil aromático do cacau é formado por mais de 600 compostos voláteis identificados, entre aldeídos, cetonas, ésteres, álcoois, pirazinas, furanos, lactonas e pirróis. Os álcoois conferem aroma frutado, herbáceo e floral. Compostos como o furaneol, o hidroximaltol e o cicloteno produzem notas de caramelo. Essa complexidade torna o cacau singular entre os alimentos consumidos no mundo.

A teobromina, principal composto bioativo do fruto, é a responsável pelo sabor amargo e atua como estimulante leve, proporcionando energia e bem-estar. Junto à cafeína, integra o grupo das metilxantinas, substâncias amplamente estudadas por seus efeitos sobre a cognição e o desempenho mental. Para as civilizações antigas, esse efeito estimulante era interpretado como algo de origem sobrenatural, o que explica o uso ritual e medicinal do cacau ao longo de séculos.

GettyimagesCacau também contém feniletilamina, molécula associada à química do amor

O cacau também contém feniletilamina, molécula associada à química do amor, capaz de acelerar o ritmo cardíaco de forma semelhante ao estado de apaixonamento. O consumo do fruto estimula a produção de endorfinas, opioides naturais ligados a sensações de bem-estar e euforia. Há ainda a presença de anandamida, um canabinoide que induz relaxamento e prazer no cérebro, e do triptofano, precursor da serotonina.

As sementes de cacau concentram cerca de 15% de seu peso seco em polifenóis, compostos que produzem sensações adstringentes e amargas e contribuem para os sabores herbáceo e frutado. Os principais grupos são catequinas, antocianinas e proantocianidinas.

A manteiga de cacau, extraída dos grãos, adiciona outra dimensão ao apelo sensorial do fruto. O composto pode cristalizar de seis formas diferentes, mas apenas uma apresenta as propriedades que os consumidores apreciam: superfície sedosa, textura suave e ponto de fusão exatamente na temperatura da língua humana. Nenhuma gordura alimentar de uso corrente apresenta essa combinação de propriedades.





Fonte: TV Alagoas

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