O Paquistão deu por encerradas neste domingo as conversas de paz entre Estados Unidos e Irã iniciadas ontem em Islamabad, e pediu às partes em conflito que sigam cumprindo seu compromisso com o cessar-fogo alcançado na última quarta-feira. “Esperamos que ambos os lados mantenham um espírito positivo para alcançar uma paz duradoura e prosperidade para toda a região e além. É imperativo que as partes continuem cumprindo seu compromisso com o cessar-fogo”, disse em comunicado o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq Dar.
As conversas de paz, o primeiro contato direto no mais alto nível entre Estados Unidos e Irã em 47 anos, terminaram ao amanhecer deste domingo em Islamabad, após 21 horas de diálogo, sem que se chegasse a um acordo, segundo afirmou o vice-presidente americano, J.D. Vance, em pronunciamento à imprensa na capital paquistanesa.
O ministro paquistanês não fez referência em seu comunicado ao conteúdo das negociações, mas destacou o papel de seu país como mediador fundamental. “Junto com o chefe das Forças Armadas e chefe do Estado-Maior do Exército, Syed Asim Munir, contribuí para a mediação em várias rodadas de intensas e construtivas negociações entre ambas as partes, que se prolongaram pelas últimas 24 horas e foram concluídas esta manhã”, indicou o chefe da diplomacia, que expressou gratidão a ambos os lados por “reconhecerem os esforços do Paquistão para contribuir com o cessar-fogo e seu papel de mediador”. “O Paquistão desempenhou e continuará a desempenhar um papel fundamental para facilitar o diálogo e a interação entre Irã e Estados Unidos no futuro”, ressaltou, sem dar detalhes sobre a possibilidade de uma segunda fase das conversas.
Irã não abre mão de arma nuclear, afirma J.D. Vance
O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, afirmou neste domingo que deixa a capital paquistanesa com uma última oferta: um “método de entendimento”. “Mantivemos várias conversas substanciais com os iranianos. Essa é a boa notícia. A má notícia é que não chegamos a um acordo. E acredito que isso seja muito pior para o Irã do que para os Estados Unidos. Portanto, voltamos ao mesmo ponto: os Estados Unidos não chegaram a um acordo, deixamos nossas linhas vermelhas muito claras, em quais aspectos estamos dispostos a ceder e em quais não, e fomos o mais claros possível, mas eles optaram por não aceitar nossos termos”, disse Vance em um pronunciamento à imprensa.
O vice-presidente americano não deu detalhes sobre qual seria essa “melhor e última oferta” por não querer “negociar em público após 21 horas de conversas privadas”, mas apontou que o principal obstáculo foi a falta de um compromisso por parte do Irã de não buscar uma arma nuclear no longo prazo. “O fato é que precisamos ver um compromisso firme de que não buscarão uma arma nuclear, nem as ferramentas que lhes permitiriam obtê-la rapidamente. Esse é o objetivo principal do presidente dos Estados Unidos, e é isso que tentamos alcançar por meio destas negociações”, destacou o vice-presidente sobre o contato direto. “Vemos um compromisso de vontade por parte dos iranianos de não desenvolver uma arma nuclear, não apenas agora ou daqui a dois anos, mas no longo prazo? Ainda não vimos”, acrescentou Vance.
As negociações entre Irã e Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano atravessaram diferentes fases desde a assinatura do acordo de 2015, que limitava as atividades atômicas de Teerã em troca da suspensão de sanções. Após a retirada unilateral de Washington do pacto em 2018, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, o Irã aumentou seu nível de enriquecimento de urânio, chegando a acumular material com 60% de pureza – próximo aos 90% necessários para uso militar, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea).
Desde então, o eixo central do conflito tem sido o enriquecimento de urânio, dado que os Estados Unidos exigem “enriquecimento zero” para impedir que o país desenvolva armamento nuclear, enquanto Teerã defende seu direito a um programa nuclear para fins pacíficos e exige o fim das sanções. No início de 2026, foram retomadas várias rodadas de conversas nucleares indiretas em Omã e Genebra, mas, em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram uma ofensiva contra o Irã.
Vance ressaltou ainda que as conversas abordaram diversos temas, nos quais a delegação americana foi bastante flexível. “O presidente [Donald] Trump nos disse que deveríamos vir de boa fé e fazer todo o possível para chegar a um acordo. Fizemos isso e, lamentavelmente, não pudemos avançar”, concluiu.
Iranianos ameaçam manter bloqueio no Estreito de Ormuz
A delegação do Irã, chefiada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Ghalibaf, deixou Islamabad pouco depois das 9 horas (horário local, 1 hora de Brasília), uma hora após a delegação americana ter deixado a capital paquistanesa, segundo informou a agência de notícias iraniana Mehr.
Apesar de o Paquistão, na qualidade de mediador, ter dado as conversas por encerradas pedindo às partes que mantenham a trégua alcançada na última quarta-feira, o Irã endureceu sua postura após o encontro. Fontes diplomáticas iranianas indicaram que “a situação no Estreito de Ormuz não mudará”, a menos que Washington aceite um “acordo razoável”. Teerã insiste em suas linhas vermelhas, que incluem o desbloqueio de fundos e um cessar-fogo efetivo que se estenda ao Líbano, em troca de flexibilizar o protocolo de segurança neste ponto vital para o comércio petrolífero mundial. No sábado, o governo norte-americano anunciou o início de um processo de desminagem da passagem marítima, usando dois destróieres e drones submarinos.
Fonte: Gazeta do Povo.




