Os esportes de inverno s?o uma paix?o nacional na It?lia, hoje obrigados a lidar com invernos cada vez mais escassos de neve. Mas, antes de tudo, s?o uma cadeia industrial, um fen?meno que passou a chamar a aten??o m?xima dos brasileiros com a vit?ria de Lucas Pinheiro Braathen, medalha ol?mpica de ouro na prova de slalom gigante pelo Brasil, que tamb?m foi a primeira medalha da hist?ria do pa?s e da Am?rica do Sul em Jogos de Inverno.
Na It?lia, entre vestu?rio t?cnico e equipamentos, os esportes de neve representam 45% do faturamento total da ind?stria esportiva italiana: quase 6 bilh?es de euros (R$ 32,4 bilh?es na cota??o atual), de um total de 13 bilh?es de euros (R$ 70,2 bilh?es), segundo dados da Associa??o Nacional Italiana dos Fabricantes de Artigos Esportivos (Assosport).
Uma participa??o que demonstra a centralidade econ?mica do esqui alpino, do snowboard e das disciplinas relacionadas, mas tamb?m a for?a manufatureira de um sistema cujo eixo est? entre Lombardia e V?neto, as mesmas regi?es que sede dos Jogos Ol?mpicos de Inverno de Mil?o Cortina 2026, que come?aram no dia 6 de fevereiro e terminam no pr?ximo domingo (22).
Os Jogos foram anunciados como um poderoso acelerador: o impacto econ?mico total esperado nos territ?rios ? estimado em cerca de 5,3 bilh?es de euros (R$ 28,62 bilh?es), com dois milh?es de visitantes e um impulso significativo para infraestrutura e turismo, apesar do aumento dos custos em rela??o ?s previs?es iniciais.
Por exemplo, a ind?stria da It?lia est? na linha de frente com os uniformes oficiais da sele??o assinados pela EA7 Emporio Armani. Durante a cerim?nia de abertura no est?dio San Siro, Giorgio Armani ganhou uma homenagem, um s?mbolo da cultura na It?lia. Assim como a Moncler , com sua cole??o co-projetada com o estilista brasileiro Oskar Metsavaht; a Lululemon para o Canad?; Ralph Lauren Corporation aos Estados Unidos; Asics para o Jap?o; Ben Sherman para o Reino Unido, entre outros.
Entre equipe da It?lia e volunt?rios, cerca de 25 mil pessoas, est?o em cena parceiros t?cnicos internacionais, com a francesa Salomon ? frente, parceira premium e licenciada oficial dos Jogos. Um detalhe que causa estranhamento, considerando a for?a e a profundidade do setor italiano. E ? justamente da? que vale a pena come?ar, para contar a hist?ria de uma ind?stria que desliza velozmente, mas com ra?zes muito s?lidas.
O distrito do Sportsystem
O cora??o da manufatura da It?lia ligada ? neve pulsa em 355 quil?metros quadrados, entre o Monte Montello e o rio Piave, na prov?ncia de Treviso. ? ali que nasce 65% das botas de esqui produzidas no mundo, 80% dos cal?ados para motociclismo e um quarto dos patins inline.
? o distrito do Sportsystem, com epicentro entre Montebelluna e Asolo, uma concentra??o industrial sem paralelo. Os n?meros: 7.824 trabalhadores, 579 unidades produtivas, 1,6 bilh?o de euros (R$ 8,64 bilh?es) em exporta??es. Do faturamento total, 68% refere-se a cal?ados outdoor e botas, 19% a esquis, snowboards e botas de neve, e os 13% restantes a bicicletas e acess?rios.
Uma voca??o internacional que tem ra?zes na hist?ria: a Tecnica, com o Moon Boot, transformou um objeto funcional em ?cone de design, enquanto a Nordica equipou campe?es como Zeno Colò e a expedi??o italiana ao K2.
Ao longo do tempo, o distrito atraiu gigantes globais, como Adidas, Salomon, Rossignol e Nike, consolidando uma reputa??o baseada em know-how manufatureiro, rapidez produtiva e capacidade de inova??o.
Ao lado da produ??o vive a mem?ria industrial. O Museu do Sportsystem guarda mais de dois mil artefatos hist?ricos, testemunhos de uma evolu??o t?cnica e cultural que atravessa o s?culo XX e chega ao presente.
Desde 2023, a Funda??o Sportsystem fortaleceu seu papel com atividades de forma??o gerencial, promo??o cultural e desenvolvimento social: workshops para empres?rios, mesas de trabalho entre empresas e programas dedicados aos t?cnicos do setor. Porque, nesse distrito, a inova??o n?o apaga a hist?ria, ela a coloca em a??o.
Os nomes mais relevantes
No distrito atuam alguns dos nomes mais relevantes do equipamento de inverno italiano. Come?ando pelo Tecnica Group, com mais de 500 milh?es de euros (R$ 2,7 bilh?es) em faturamento, que re?ne marcas como Tecnica, Nordica, Moon Boot, Lowa e Rollerblade. Ao lado est? a Dalbello, especialista em botas de esqui, em especial para o freeride, que afirma manter uma cadeia produtiva totalmente italiana, al?m de empresas hist?ricas como Aku e Garmont, refer?ncias no outdoor t?cnico.
H? tamb?m a Northwave, l?der em cal?ados de ciclismo de inverno e produtora de botas e pranchas de snowboard Drake. Em Asolo s?o produzidas as luvas e bast?es Leki: fundada em 1948 como uma pequena oficina de tornearia em madeira, hoje ? uma das marcas mais reconhecidas do mundo, com produtos escolhidos por campe?es como Mikaela Shiffrin.
Pouco distante, em Bassano del Grappa, est? a Masters, outra excel?ncia internacional em bast?es de esqui, trekking e caminhada n?rdica. Tamb?m em Bassano atua a CMP. Os primeiros passos datam de 1948, com uma banca no mercado da cidade administrada pela vi?va Campagnolo; pouco depois, junto com os cinco filhos, em especial Giorgio, nasceu a F.lli Campagnolo. Hoje ? um grupo internacional com cinco marcas, CMP, Melby, Maryplaid, Jeanne Baret e Fc F.lli Campagnolo, e uma produ??o que supera dez milh?es de pe?as por ano.

Um pouco mais ao sul, em Tezze sul Brenta, em 1990 Alberto Olivetto lan?ava a Energiapura, hoje entre as marcas de refer?ncia em vestu?rio t?cnico de esqui e competi??o, com estamparia por sublima??o e uso marcante de cores como elementos identit?rios desde as origens.
Na prov?ncia de Verona atua a Brugi, enquanto na prov?ncia de Belluno a Karpos ? refer?ncia em outdoor, alpinismo e esqui de montanha: uma hist?ria que remonta ao segundo p?s-guerra e um dna orientado ? funcionalidade. Ao lado dos grandes distritos surgem micro-polos de alt?ssima especializa??o, capazes de competir em escala global.
Capacetes, esquis, snowboard: a cadeia da excel?ncia
Na prov?ncia de B?rgamo, entre Chiuduno, Nembro e Rovetta, concentra-se uma cadeia de excel?ncia para capacetes e roupas de esqui: Task, Kask, com a marca Koo para ?culos e m?scaras, e Las Helmets. Em Rovetta atua a Dkb, que em 2023 realizou, junto com o Radici Group, o primeiro traje de esqui circular, s?mbolo de uma inova??o que integra sustentabilidade e desempenho.
N?o por acaso: esta ? a terra de Fausto Radici, expoente da Valanga Azzurra, mas tamb?m de Sofia Goggia e Michela Moioli. Na Valtellina, ?rea ol?mpica com Bormio no centro das aten??es, atuam marcas que escreveram e continuam a escrever a hist?ria dos esportes de inverno. A Crazy, fundada pela atleta Valeria Colturi, foi pioneira no traje de esqui de montanha; a SkiTrab, s?mbolo da disciplina, acompanhar? o esqui de montanha em sua estreia ol?mpica justamente em Mil?o Cortina 2026, com atletas como o bormino Nicolò Canclini.
Tamb?m em Bormio nasceu, em 1989, a Level Gloves, hoje entre as refer?ncias mundiais em luvas t?cnicas para esqui e snowboard, presente na Copa do Mundo com atletas de destaque, entre eles Federica Brignone.
Esta tamb?m ? terra de campe?es, a come?ar por Deborah Compagnoni, e de um complexo de esqui que ter? papel central nos Jogos: aqui ocorrer? a primeira prova ol?mpica e a mais ic?nica de todas, a descida livre, em 7 de fevereiro, seguida por todas as competi??es masculinas. Protagonista absoluta, embora ausente do logotipo oficial: a pr?pria montanha.
Tamb?m no Trentino-Alto ?dige, que sediar? diversas competi??es, atuam empresas de dimens?o global como Salewa, em Bolzano, La Sportiva, no Vale di Fiemme, e Oberalp, grupo que re?ne seis marcas, Dynafit, Salewa, Pomoca, Wild Country, Evolv e LaMunt, protagonistas de uma nova fase do esqui de montanha e do outdoor t?cnico.
Mil?o Cortina 2026 n?o ? apenas um evento esportivo da It?lia, mas uma vitrine industrial sem precedentes. Por tr?s das medalhas e das pistas, a It?lia apresenta um ecossistema composto por distritos, pequenas e m?dias empresas, grandes grupos e compet?ncias artesanais. Uma manufatura que une design, engenharia, mem?ria hist?rica e sustentabilidade, e que na neve continua a competir, e frequentemente a vencer, em n?vel global.
Publicada originalmente em Forbes It?lia




