O que esperar do indicado de Trump ao Fed

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O presidente dos EUA, Donald Trump, escolheu o financista Kevin Warsh para presidir o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês) na expectativa de que ele reduza as taxas de juros do país, hoje na faixa de 3,5% a 3,75%. A meta virou prioridade no governo e levou Trump a pressionar o atual presidente do banco central, Jerome Powell.

Nesse cenário, Warsh, que já trabalhou no Fed, terá dois desafios principais: equilibrar a independência da instituição com os interesses da Casa Branca e manter a confiança do mercado diante das dúvidas sobre seu perfil na condução da política monetária — tarefas que, como mostra a história, nem sempre terminam bem quando a política se impõe sobre o banco central.

Warsh deve assumir o Fed a partir de maio. Sua nomeação, entretanto, ainda requer confirmação do Senado. A sabatina deve acontecer entre fevereiro e março.

O currículo de Kevin Warsh mostra que ele não é um iniciante na gestão de políticas econômicas. Nas últimas décadas, atuou como o membro do Conselho de Governadores mais jovem do Fed, foi assessor econômico do presidente George W. Bush, banqueiro em Wall Street e, por pouco, não assumiu a presidência do banco central dos EUA em 2017, durante a primeira gestão de Trump. Na época, o republicano optou por indicar Powell por considerá-lo um nome de continuidade e mais alinhado a uma política monetária gradual, enquanto havia dúvidas sobre a disposição de Warsh para manter juros em patamares menores por mais tempo.

Independência do Fed em jogo e um lembrete histórico

A principal preocupação entre os analistas, economistas e investidores nos últimos meses em relação ao Fed foi a pressão política do presidente Trump para a redução das taxas de juros, algo que Powell não acatou e acabou sendo alvo de uma investigação do Departamento de Justiça, relacionada ao aumento dos custos da reforma da sede do banco central.

A indicação de Warsh levanta uma questão fundamental que envolve a politização do Federal Reserve. A independência do banco central dos EUA foi testada em diferentes administrações ao longo da história americana, motivo pelo qual decisões sobre taxas de juros, controle da inflação e estabilidade financeira precisaram ser protegidas da política eleitoral.

Um dos exemplos é o do ex-presidente Richard Nixon (1969-1974), que pressionou fortemente o Fed e seu presidente à época, Arthur Burns, para afrouxar a política monetária e baixar as taxas de juros, visando as eleições de 1972. Como resultado, os EUA sofreram consequências de longo prazo com uma inflação elevada, que saltou de 5,3% em 1970 para 11,8% em 1974.

Além da pressão sobre os juros, em agosto de 1971, Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, iniciando uma era de dinheiro fiduciário, ação que ficou conhecida como “Choque Nixon”. Com a medida, o governo pôs fim ao vínculo do valor por onça de ouro com o dólar e passou a basear o valor da moeda apenas na confiança no Fed e no governo. Países estrangeiros também não podiam mais trocar dólares por ouro.

Kevin Warsh se encontrará em um dilema semelhante e terá um grande desafio de manter o banco independente em meio à pressão política, que pode gerar desequilíbrios de longo prazo para a economia americana.

Sua nomeação é vista por alguns analistas dentro de um cenário crítico, no qual a Casa Branca busca exercer ampla influência sobre a política monetária. Dado o discurso público de Trump criticando Powell nos últimos meses e a pressão por sua saída antecipada, o presidente viu em Warsh alguém de confiança que deve seguir sua agenda de redução das taxas de juros.

O líder da Casa Branca afirmou em diversas ocasiões que deseja ver as taxas de hipoteca mais baixas – atualmente elas estão um pouco acima de 6% – visto que se tornaram um ponto crítico para os compradores de imóveis. Em entrevista a Larry Kudlow, da Fox Business, o indicado à presidência do Fed sugeriu que poderia “reduzir bastante as taxas de juros e, com isso, viabilizar hipotecas de taxa fixa de 30 anos para que sejam acessíveis e possamos reativar o mercado imobiliário”.

As visões do financista sobre política monetária, entretanto, são consideradas há muito tempo agressivas. Isso significa que ele tem uma tendência a manter uma política mais restritiva, com taxas de juros mais altas para manter a inflação sob controle.

Apesar disso, em declarações recentes após sua nomeação, ele demonstrou certo alinhamento com a agenda de Trump, argumentando que o aumento da produtividade e o “boom” da Inteligência Artificial (IA) ​​estão preparando terreno para um crescimento acelerado que não ameaça uma alta da inflação, mesmo com o índice acima da meta de 2% do Fed – os EUA tiveram uma inflação de 2,7% em 2025. Resta acompanhar como ele se portará em relação às tentativas de interferência do governo federal.

Para Marcello Marin, mestre em Governança Corporativa e especialista em recuperação judicial, o risco do banco central americano perder sua independência é improvável. “O Fed tem mandato, estrutura colegiada e regras próprias, mas pode haver uma crise de reputação caso o mercado perceba um alinhamento político nas decisões”.

Adriana Melo, especialista em Finanças e Tributação, também avalia que não há evidências de uma perda de independência institucional do Fed.

“Existe risco real de atrito institucional. Warsh já defendeu publicamente a independência operacional do Fed, com prestação de contas, e tratou essa independência como algo que precisa ser prático. O ponto de atenção é o contexto: Trump criticou [Jerome] Powell e pressiona por taxas de juros mais baixas. Se o mercado interpretar suas decisões como politizadas, a independência sofre por erosão de credibilidade, não por ruptura formal”, destacou.

O que esperar de Warsh no comando do banco central americano

Após a indicação de Warsh, os principais índices de ações dos EUA caíram, o dólar se valorizou e os metais preciosos despencaram, com a prata registrando sua pior queda diária desde 1980 e o ouro tendo um dos piores dias em décadas – sugerindo dúvidas do mercado sobre o perfil de Warsh e a direção da política monetária que o Fed terá sob sua liderança.

Em entrevista à Bloomberg, estrategistas do Citigroup, empresa de serviços financeiros sediada em Nova York, avaliaram que Warsh provavelmente adotará uma abordagem gradual para reduzir o portfólio de US$ 6,6 trilhões do banco central americano, a fim de evitar tensões no mercado monetário. Esse portfólio é formado principalmente por títulos do Tesouro e papéis ligados a financiamentos imobiliários que o Fed comprou ao longo dos anos para estimular a economia. Ao comprar esses papéis, o banco central dos EUA injetou dinheiro no sistema financeiro, ajudando a manter os juros mais baixos.

Essa estratégia foi usada amplamente após a crise financeira de 2008 e durante a pandemia de Covid-19. Em 2022, o volume desses ativos chegou a cerca de US$ 9 trilhões. Desde então, o Fed vinha reduzindo esse valor — um processo conhecido como aperto quantitativo — até os atuais US$ 6,6 trilhões, mas abandonou tal prática em dezembro, depois que as taxas no mercado de recompra – operações de curtíssimo prazo com títulos usadas por bancos e outras instituições para obter liquidez – dispararam.

Em discurso em abril de 2025, Warsh afirmou que o balanço inchado do Fed virou um “sinal da crescente intervenção do banco central na economia”. Mas na visão dos analistas, a retomada da redução do balanço patrimonial poderia reacender as pressões no mercado.

Sobre a redução das taxas hipotecárias, Bill English, professor de Yale e ex-diretor da divisão de assuntos monetários do Fed, explicou ao The Washington Post que apenas mexer no balanço patrimonial não seria suficiente para seu objetivo.

“Se tudo o que ele fizer for reduzir o balanço patrimonial do Fed, é difícil ver como isso seria compatível com taxas de hipoteca mais baixas, e isso cria certa tensão com o presidente”, avalia.

Warsh já defendeu que planeja “mudar o regime dentro do Fed”. Segundo ele, isso estaria ligado a um retorno ao que um banco central deve fazer, que é garantir a estabilidade de preços.

“O Fed perdeu o rumo. Perdeu o rumo na supervisão, perdeu o rumo na política monetária”, disse Warsh em uma entrevista no ano passado. “Precisamos de uma mudança de regime no Fed, e isso não é apenas sobre o presidente. É sobre toda uma gama de pessoas, é sobre mudar a mentalidade e os modelos deles e, francamente, é sobre dar umas sacudidas, porque a forma como têm feito as coisas não está funcionando”.

Ele também esclareceu que a instituição deve se concentrar na moeda, não no emprego inclusivo, nas mudanças climáticas ou em outros objetivos políticos, o que se alinha aos interesses de Trump.

O especialista Marcello Marin destacou à Gazeta do Povo que Kevin Warsh possui um perfil mais conservador, o que pode ser positivo na hora de decidir a formação de políticas monetárias.

“Se confirmado pelo Senado, a expectativa é de decisões com foco em credibilidade, controle da inflação e comunicação mais firme, possivelmente com menor tolerância a estímulos prologados e maior preocupação com efeitos de liquidez e preços de ativos”, pontuou.



Fonte: Gazeta do Povo.

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