O que significa o fracasso das negociações entre EUA e Irã

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As negociações entre EUA e Irã no Paquistão iniciadas neste sábado (11) para encerrar o conflito em curso no Oriente Médio terminaram na madrugada deste domingo (12) sem um resultado positivo. Depois de mais de 21 horas de conversas diretas em Islamabad, as delegações deixaram a capital paquistanesa sem um acordo e sem confirmar oficialmente se haverá uma nova rodada de diálogo.

O fracasso das negociações deste final de semana não significa necessariamente que a guerra vai recomeçar de forma imediata, mas lança dúvidas sobre o futuro do cessar-fogo temporário de duas semanas anunciado na terça-feira (7), que deve expirar no próximo dia 22.

Após 40 dias de guerra inconclusiva, que causou danos pesados ao Irã mas não resolveu de forma definitiva as questões centrais do conflito, o Paquistão se ofereceu como mediador e conseguiu articular uma trégua temporária entre Irã e EUA. A pausa abriu espaço para que as duas delegações se sentassem à mesa pela primeira vez durante o conflito para tentar encontrar uma saída diplomática.

As conversas deste final de semana aconteceram no Hotel Serena, em Islamabad, com o chanceler paquistanês Ishaq Dar atuando como mediador. O vice-presidente americano J.D. Vance liderou a delegação dos EUA, acompanhado pelo enviado especial da Casa Branca Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. O Irã foi representado pelo presidente do Parlamento do país, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo chanceler Abbas Araghchi.

O que estava em jogo

Os Estados Unidos chegaram às negociações de Islamabad com um plano de 15 pontos. Entre as principais exigências americanas estavam o desmantelamento do programa nuclear iraniano, a reabertura do Estreito de Ormuz – bloqueado pelo Irã desde o início do conflito (apesar de ter sido brevemente reaberto neste cessar-fogo temporário) – e o fim do apoio de Teerã a grupos terroristas no Oriente Médio, como o Hezbollah no Líbano.

O Irã, por sua vez, apresentou uma proposta de 10 pontos. O regime exigiu manter o controle sobre o Estreito de Ormuz, o fim dos ataques israelenses contra seus grupos terroristas aliados, o levantamento de sanções econômicas e o pagamento de reparações de guerra pelos danos causados pela ofensiva americana e israelense.

Segundo autoridades paquistanesas ouvidas pela agência americana Associated Press (AP), houve avanços em alguns pontos. Mas as distâncias nas questões centrais permaneceram intransponíveis.

Os nós que travaram um possível acordo

O principal ponto de atrito nas negociações deste final de semana foi o programa nuclear iraniano. Ao sair do hotel onde as conversas ocorreram em Islamabad, o vice-presidente Vance disse que os EUA “precisam ver um compromisso afirmativo” de que os iranianos “não buscarão uma arma nuclear e não buscarão as ferramentas que lhes permitiriam alcançar rapidamente uma arma nuclear”. O Irã historicamente nega ter ambições nucleares militares, mas insiste no direito a um programa civil de enriquecimento de urânio – etapa técnica que especialistas consideram a poucos passos do nível necessário para fabricar uma bomba.

O segundo ponto foi o Estreito de Ormuz. Antes do bloqueio iraniano, por ali passava 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Washington exigiu a reabertura imediata e irrestrita da rota estratégica. Teerã tratou nestas negociações o controle do estreito como sua principal carta de pressão, e recusou qualquer concessão que não viesse acompanhada de um acordo satisfatório em outros pontos.

O terceiro entrave foi a ofensiva israelense no Líbano. Enquanto as delegações negociavam em Islamabad, Israel manteve seus bombardeios contra o Hezbollah no sul do país vizinho. O Irã exigiu que os EUA pressionassem Israel a cessar os ataques como condição para qualquer avanço. Washington rejeitou vincular as duas questões, argumentando que a trégua acordada na terça-feira se aplicava apenas ao conflito direto entre americanos e iranianos.

Depois do fracasso nas conversas, novas ameaças

A resposta de Trump ao colapso das negociações no Paquistão foi imediata. Em publicações no Truth Social horas após a delegação americana deixar a capital paquistanesa, o presidente dos EUA anunciou o bloqueio naval do Estreito de Ormuz, ordenou à Marinha americana que intercepte todo navio que tenha pago pedágio ao Irã até o momento e anunciou o início da destruição das minas colocadas por Teerã no estreito.

“Qualquer iraniano que nos dispare, ou que dispare contra embarcações pacíficas, será enviado ao inferno”, escreveu Trump.

Em uma segunda publicação, o presidente americano foi ainda mais longe: “No momento apropriado, estamos completamente prontos e nossas forças militares terminarão com o pouco que resta do Irã.”

A Guarda Revolucionária respondeu Trump em poucas horas, afirmando que o Estreito de Ormuz está “sob controle total” de suas forças e que “o inimigo ficará preso em um vórtice mortal” caso dê um passo em falso.

Além do Irã, Trump também ameaçou impor tarifas de 50% à China caso se confirme que Pequim está fornecendo sistemas de defesa antiaérea ao Irã – informação que a emissora americana CNN divulgou neste sábado citando fontes de inteligência e que as autoridades chinesas negaram.

O que dizem os analistas

Para Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, o resultado das negociações revela um problema aberto pelo impasse no conflito: as duas partes acreditam ter vencido a guerra – e isso inviabiliza concessões reais. Em publicação na rede X, ele destacou que a percepção iraniana de vitória “não é a mentalidade de um regime se preparando para ceder.”

“Esse abismo entre as expectativas americanas e a autopercepção iraniana está agora no coração de um crescente impasse estratégico”, afirmou. “Enquanto ambos os lados acreditarem que têm vantagem e, portanto, não veem necessidade de fazer concessões, as chances de escalada vão superar as de desescalada. Do ponto de vista iraniano, em particular, há poucos sinais de disposição para ceder. Nessas condições, o caminho mais provável é o de uma confrontação, e não de um acordo”, acrescentou em outro post.

Segundo reportou a AP, Ali Vaez, diretor do projeto Irã no think tank International Crisis Group, adota uma leitura mais cautelosa das conversas deste final de semana, mas igualmente preocupante. Para ele, o cenário mais provável não é o da retomada da guerra, mas um período volátil de pressões e sinalizações. “O caminho à frente, se é que existe, está em um acordo limitado e recíproco que compre tempo e reduza a temperatura”, avaliou.

O que deve acontecer agora

Vance deixou Islamabad com o que chamou de “oferta final e melhor” dos EUA sobre a mesa, sinalizando que a bola agora está do lado iraniano. O chanceler paquistanês Ishaq Dar afirmou que seu país seguirá atuando como mediador do conflito e pediu que as partes respeitem a trégua vigente de duas semanas. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer também apelou para que ambos os lados “encontrem uma saída” e evitem nova escalada no confronto.

O regime iraniano, por sua vez, disse que “a diplomacia nunca termina” e que seguirá consultando países aliados e vizinhos para chegar a um acordo. Contudo, o presidente do Parlamento, Ghalibaf, afirmou que os EUA são “incapazes” de conquistar a confiança de Teerã.

A trégua em vigor expira em 22 de abril. Até lá, Trump precisará decidir se seguirá mantendo o diálogo diplomático com a parte iraniana ou se continuará com a guerra, que já pressiona os preços nos EUA e complica o cenário republicano para as eleições de meio de mandato em novembro. O analista Vaez disse que se há um caminho nessas negociações, ele é estreito – e o tempo está se esgotando.



Fonte: Gazeta do Povo.

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