Por Que o Chocolate É Irresistível? A Neurociência Explica os Mistérios do Cacau

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O cacau age simultaneamente em pelo menos cinco sistemas neurológicos ligados ao prazer, ao humor e à recompensa. Não se trata de fraqueza de vontade: lá em 2012, pesquisadores da Universidade de Michigan identificaram um mecanismo cerebral capaz de mais que dobrar o consumo espontâneo de chocolate em modelos animais, por meio de um neurotransmissor opioide produzido pelo próprio organismo.

O achado ajuda a explicar por que, neste domingo de Páscoa, o Brasil figura entre os maiores mercados consumidores de chocolates do mundo, e por que tantos consumidores terminam o segundo ovo antes de perceber.

Vício químico ou hábito aprendido?

A neurociência distingue dois fenômenos que o senso comum costuma misturar. O chocolate não gera dependência química nos moldes do álcool ou de drogas ilícitas: os compostos bioativos do cacau chegam ao sistema nervoso central em concentrações insuficientes para provocar abstinência física.

O que a pesquisa documenta é um padrão de comportamento aprendido, sustentado por associações emocionais, pela experiência sensorial e por uma cascata de sinalizações neurológicas que se reforçam mutuamente.

GettyimagesCiência explica o motivo da atração pelo cacau

O debate ganhou estrutura metodológica com a Yale Food Addiction Scale (YFAS), instrumento hoje adotado em estudos clínicos para identificar comportamentos compulsivos em relação a alimentos ultraprocessados.

Uma revisão publicada em Brain Sciences em setembro de 2024, por pesquisadores do Icahn School of Medicine at Mount Sinai, concluiu que alimentos altamente processados ativam a via mesolímbica da dopamina de forma análoga a substâncias psicoativas, comprometendo o controle inibitório e ampliando a reatividade a pistas ambientais. Chocolate à vista, portanto, não é uma metáfora: é um gatilho neurológico mensurável.

O loop opioide: encefalina e o neoestriado

O mecanismo mais diretamente ligado ao consumo compulsivo foi descrito em outubro de 2012 na Current Biology. Alexandra G. DiFeliceantonio e colaboradores, da Universidade de Michigan, demonstraram que a ingestão de chocolates palatáveis provoca elevações de encefalina, peptídeo opioide endógeno estruturalmente aparentado à morfina, de mais de 150% na porção anteromedial do neoestriado dorsal. A região, historicamente associada ao controle motor, passou a ser reconhecida como parte do circuito motivacional para a ingestão de alimentos.

Ao estimular artificialmente os receptores mu-opioides da mesma área, os animais consumiram mais de 250% além do volume habitual, sem que houvesse alteração no prazer percebido durante o consumo. O estudo separou dois processos neurologicamente distintos: “querer” mais chocolate e “gostar” mais de chocolate operam por vias independentes. A encefalina age sobre o “querer”, o impulso de continuar, não sobre o sabor.

GettyimagesCérebro recebe estímulos irresistíveis ao cacau

“O mesmo circuito cerebral que testamos aqui fica ativo quando pessoas obesas veem alimentos e quando dependentes de drogas veem cenas relacionadas ao uso”, afirmou DiFeliceantonio em nota da Universidade de Michigan. Para a pesquisadora, os achados indicam que esse neurotransmissor pode impulsionar formas de consumo compulsivo em humanos.

Anandamida, feniletilamina e teobromina: três vias paralelas

O cacau contém N-oleoiletanolamina e N-linoleoiletanolamina, compostos que inibem a enzima FAAH, responsável pela degradação da anandamida. Esse endocanabinoide se liga aos mesmos receptores CB1 acessados pelo THC da cannabis. O mecanismo não depende de anandamida em quantidade significativa no próprio cacau, cujas concentrações são negligenciáveis, mas da inibição da via que a destrói no organismo, prolongando o bem-estar natural.

O efeito cresce com o teor de cacau: chocolates mais escuros concentram mais desses inibidores. O mecanismo foi descrito originalmente pelo farmacologista Daniele Piomelli, hoje na Universidade da Califórnia em Irvine.

A feniletilamina (PEA), subproduto da torrefação, atua como agente liberador de dopamina e norepinefrina, produzindo elevação da frequência cardíaca e sensação de alerta similares às do estado de excitação emocional intensa.

GettyimagesCompostos ativos explicam parte do que é o cacau

A teobromina, principal composto bioativo do cacau em termos quantitativos, age como vasodilatador e estimulante leve do sistema nervoso central. Ao contrário da cafeína, gera energia de forma gradual e sem queda abrupta. Uma revisão publicada em Food and Function em 2019 documentou seus efeitos cognitivos e metabólicos, incluindo melhora no fluxo sanguíneo cerebral. O triptofano, precursor da serotonina, completa o quadro ao contribuir para associações emocionais positivas com o consumo.

Por que alguns não conseguem parar no primeiro pedaço

A suscetibilidade ao chocolate não é uniforme. Um estudo publicado em Frontiers in Nutrition em 2024 verificou que adultos com obesidade portadores de escores genéticos indicativos de sinalização hipodopaminérgica, isto é, com um sistema de recompensa que responde com menos intensidade ao normal, apresentaram frequência mais elevada de comportamento alimentar compulsivo, mensurado pela Yale Food Addiction Scale.

O circuito de recompensa subdimensionado exige consumo mais alto para atingir o mesmo nível de ativação dopaminérgica que outras pessoas obtêm com quantidades menores. No caso do chocolate, isso se manifesta como dificuldade concreta de interromper o consumo após o primeiro pedaço.

Antes da primeira mordida

Os efeitos neurológicos do cacau começam antes da ingestão. O perfil aromático do chocolate resulta de mais de 600 compostos voláteis, entre eles furaneol e cicloteno, responsáveis pelas notas de caramelo que sinalizam recompensa ao cérebro ainda na fase olfativa.

A manteiga de cacau pode cristalizar em seis formas polimórficas distintas, mas só uma apresenta as propriedades valorizadas pelo consumidor: superfície sedosa, textura suave e ponto de fusão coincidente com a temperatura da mucosa oral: um sólido projetado, pela própria física da matéria, para derreter na boca humana.

Para o setor cacaueiro, a mesma base bioquímica que confere ao cacau puro propriedades funcionais documentadas pela ciência é, em formulações com excesso de açúcar e gordura, um amplificador direto do comportamento compulsivo. Compreender essa diferença, entre o cacau como matéria-prima e o chocolate como produto, é o ponto de partida para entender sobre consumo, saúde e posicionamento de mercado neste setor.





Fonte: TV Alagoas

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