Por que o Paquistão está mediando o cessar-fogo entre EUA e Irã

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O Paquistão teve um papel central no cessar-fogo de duas semanas anunciado por EUA e Irã nesta terça-feira (7). O país foi responsável por intermediar praticamente de última hora negociações que impediram os ataques americanos contra instalações energéticas iranianas e viabilizaram a reabertura do Estreito de Ormuz, bem como abriu caminho para conversas diretas entre Washington e Teerã para um acordo de paz mais amplo.

Tanto o Irã quanto os EUA destacaram em seus comunicados sobre o cessar-fogo temporário o papel do Paquistão como mediador. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, convidou ambos os países a se encontrarem em Islamabad, a capital do Paquistão, para seguirem com as negociações. O lado iraniano falou que essas conversas podem começar já nesta sexta-feira (10).

O protagonismo do Paquistão na mediação deste conflito não surgiu de forma repentina, ele é resultado de uma combinação de fatores estratégicos, políticos e econômicos que colocaram o país em uma posição única para atuar como intermediário.

Relações do Paquistão com os dois lados abriram caminho para papel de mediador

Um dos principais motivos para a atuação do Paquistão como mediador do conflito em curso é sua capacidade de dialogar simultaneamente com Washington e Teerã. O país mantém atualmente laços fortes, tanto econômicos quanto diplomáticos, com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que compartilha uma longa fronteira e relações políticas e culturais com o Irã.

Essa combinação de vínculos permitiu que Islamabad atuasse como o último canal indireto entre as partes em um momento em que o diálogo direto entre Teerã e Washington estava praticamente interrompido.

Para Paul Staniland, cientista político especializado em segurança internacional e sul da Ásia e pesquisador do think tank Chicago Council on Global Affairs, o movimento paquistanês reflete uma estratégia que busca ampliar sua relevância global.

“O Paquistão está tentando usar suas diferentes conexões para sinalizar um nível maior de influência geopolítica do que se esperava dele”, disse em análise publicada no site da instituição.

Segundo autoridades paquistanesas, ouvidas pelo jornal israelense The Times of Israel, o país atuou nas últimas horas como um canal diplomático, transmitindo propostas dos EUA ao Irã e levando as respostas iranianas de volta a Washington.

Construção de influência junto a Trump foi decisiva

Outro fator central do surgimento do Paquistão como mediador do conflito no Oriente Médio foi o esforço recente do governo paquistanês para se aproximar da gestão Trump. Nos últimos meses, Islamabad se dedicou ao cultivo das relações de todo o seu governo com a Casa Branca e o círculo mais próximo do presidente Trump.

Esse relacionamento ajudou a abrir canais diretos em momentos críticos, como o que se desenhava nesta terça-feira, quando os Estados Unidos ameaçavam ampliar os ataques contra o Irã. O chefe das Forças Armadas do Paquistão, Asim Munir, foi um dos que manteve contato frequente com autoridades americanas nas últimas horas, enquanto o primeiro-ministro Shehbaz Sharif seguia atuando na frente diplomática pública.

Staniland pontuou em sua análise que já existia uma “base de cooperação” entre os EUA e o Paquistão, o que ajudou a viabilizar o papel do país asiático como mediador do conflito contra o Irã.

Interesse econômico pressionou o governo do Paquistão pela mediação

Além do fator diplomático, o Paquistão é um dos países que possuem interesse direto em encerrar o conflito no Oriente Médio. O bloqueio do Estreito de Ormuz, rota crucial para o transporte global de energia, elevou os preços do petróleo e pressionou gravemente a economia paquistanesa.

O Paquistão depende de importações de energia do Oriente Médio e, por isso, é diretamente afetado por qualquer interrupção na região. A alta nos preços dos combustíveis e o risco de instabilidade econômica interna aumentaram a pressão por uma solução rápida para o conflito.

Além disso, o país está sofrendo com as tensões internas, com protestos contra e a favor do Irã e dos EUA.

Nesse contexto, o papel do Paquistão na mediação do conflito também foi uma tentativa do país de evitar que o conflito regional se transformasse em uma crise interna mais ampla.

Espaço deixado por países do Golfo favoreceu Islamabad

Tradicionalmente, negociações entre EUA e Irã passam por países como Omã ou Catar. No entanto, com o avanço da guerra e ataques do Irã contra os países do Golfo, inclusive contra instalações energéticas no Catar, esses atores perderam espaço ou neutralidade.

Com os países do Golfo diretamente sob pressão iraniana, o Paquistão emergiu como alternativa viável para a diplomacia.

Além disso, o Paquistão não mantém relações diplomáticas com Israel – o país apoia a questão Palestina – o que reforçou sua imagem de interlocutor aceitável para Teerã.

Durante o anúncio de cessar-fogo desta terça, o Paquistão disse que o acordo também iria paralisar as operações israelenses contra o Hezbollah no Líbano. Contudo, o governo de Israel disse nesta quarta-feira (8) que o acordo não abrange o Líbano e que o país deve seguir com a operação contra o Hezbollah, apesar de ter concordado em parar seus bombardeios contra o Irã, atendendo ao acordo fechado pelo presidente Trump.

Coordenação internacional

A atuação paquistanesa nas negociações também envolveu articulação com outras potências regionais e globais. Nos últimos dias, Islamabad manteve contatos com Arábia Saudita, Turquia e Egito, além de dialogar com a China, com o objetivo de ampliar o alcance das tratativas e viabilizar uma pausa no conflito.

Esse alinhamento reforçou o peso diplomático das negociações e contribuiu para a formulação da proposta de cessar-fogo temporário, incluindo a reabertura do Estreito de Ormuz, que o Irã alega ter bloqueado novamente devido aos ataques de Israel contra o Hezbollah no Líbano.

Nos próximos dias, Estados Unidos e Irã devem avançar em negociações com base em propostas ainda divergentes. Entre os principais impasses estão o programa nuclear iraniano, as sanções econômicas e o controle sobre o Estreito de Ormuz, pontos que seguem sem consenso entre as partes.

Cessar-fogo frágil

Apesar da atuação paquistanesa e do anúncio desta terça-feira, o cessar-fogo temporário já enfrenta sinais de instabilidade no primeiro dia de vigência.

Relatos de violações do acordo surgiram ao longo desta quarta-feira, com diferentes interpretações sobre os termos da trégua e sua abrangência territorial. Um dos principais pontos de divergência envolve o Líbano, que segue sendo alvo de ataques israelenses – que miram atingir instalações do grupo terrorista Hezbollah, enquanto autoridades americanas indicam que o país não estaria incluído no acordo.

A escalada paralela no front regional levou o Irã a anunciar uma nova interrupção do tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz, que havia sido reaberto devido ao acordo. Ao mesmo tempo, países do Golfo relataram ataques com mísseis e drones contra infraestruturas críticas, elevando a tensão mesmo após o início da trégua.

Nos Estados Unidos, o governo do presidente Donald Trump ameaçou impor tarifas a países que forneçam armas ao Irã, enquanto autoridades americanas condicionam o avanço das negociações com o regime islâmico a concessões no programa nuclear iraniano.

O próprio Paquistão, responsável pela mediação, reconheceu as dificuldades iniciais na implementação do acordo. O primeiro-ministro Sharif fez um apelo público nesta quarta para que as partes respeitem a trégua, destacando a necessidade de “moderação” para que a diplomacia avance.



Fonte: Gazeta do Povo.

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